
(Foto: Tsafrir Abayov / Tsafrir Abayov/AP )
Esta é uma daquelas pequenas e sonolentas cidades rurais sionistas,
cheia de judeus que confessam folhear catálogos de sementes tanto quanto
a Torá. Eles vivem entre 1,5 e três quilômetros da fronteira com Gaza. E
brincam que gostam da vida tranquila.
Há brinquedos de crianças
espalhados pelos quintais de areia. Triciclos, trampolins, balanços
castigados. Mas nenhuma criança. As crianças se foram. A região agora é
patrulhada por soldados israelenses. E os soldados estão ficando gordos
com todo o café e docinhos que os moradores vão oferecendo.
O
capitão Ronen Fischer, vice-comandante de um esquadrão de uma unidade de
infantaria da reserva, é o responsável pela segurança, o que significa
que é trabalho dele garantir que ninguém aqui seja baleado ou levado por
militantes de Gaza surgindo de túneis.
Ele admite que não há muito o que ele ou seus homens possam fazer em relação aos morteiros ou ao lançamento de foguetes.
—
Você tem uns dez segundos —explica Fischer. — Então, não há tempo
suficiente para derrubar as rajadas recebidas somente com o Domo de
Ferro (sistema de defesa aérea israelense patrocinada pelos EUA).
Basicamente, você corre.
Metade dos moradores da cidade se
mudaram, mas a metade que permaneceu são responsabilidade de Fischer. Há
um monte de avôs e avós.
Ele leva a sério. Pesa sobre ele, você pode dizer:
— Nosso trabalho é proteger a vida deste lugar — diz Fischer.
Marido
de 35 anos de idade, pai de um bebê, com outro a caminho, que vive a 80
quilômetros ao norte, em um apartamento muito caro, Fischer fala três
ou quatro idiomas, tem nível superior e é estressado. Viaja para viver,
trabalhando como gerente de vendas de uma empresa que vende GPSs que
ajudam a rastrear encomendas e entregas.
— Esta não é a minha
roupa usual — conta ele, suando e oprimido pelo colete à prova de balas,
capacete, rádios e uma arma automática.
Ele passeia com o repórter pelas redondezas e aumenta o ar-condicionado do carro o tanto quanto pode.
— Parece pacífico. E este é o problema — comenta Fischer.
Há profundos e estreitos leitos de rios, morros cobertos de mato, dunas de areia.
— Há túneis por todo o lugar — afirma.
Ele aponta para uma estufa, onde agrônomos locais desenvolvem estoques de sementes para os famosos tomates-cereja de Israel.
— É onde o trabalhador convidado foi morto — recorda Fischer.
Narakorn
Kittiyangkul, 36, da Tailândia, escutou um foguete chegando e
levantou-se para tirar uma fotografia. Foi atingido por uma rodada
seguinte e sangrou por todo o caminho, até o hospital.
— Pessoas
que vivem aqui dizem que você se acostuma com as sirenes e foguetes —
conta Fischer. — Ninguém pode se acostumar com isso.
Surge a
pergunta: você poderia viver aqui? Fischer fala sobre as moradias a
preços acessíveis, as escolas para as quais as crianças podem ir
caminhando, a vida bucólica, o clima amigável. E, então, responde:
— Não. Para ser honesto, não.
Fonte: O Globo